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Carlos Vaz: “Há muitas operações em que os cirurgiões não são capazes de fazer porque são muito exigentes” Voltar

quarta-feira, 11/09/2019   
João Dias (EM/ICVS)
Um dos cirurgiões portugueses mais reputados do país marcou presença na Escola de Medicina e no ICVS para o primeiro curso de cirurgia robótica em Portugal, organizado pela instituição minhota. Carlos Vaz é cirurgião na CUF, em Lisboa e no Porto, e pioneiro neste campo inovador e que ainda vai revolucionar muito a medicina cirúrgica, como diz na entrevista.
A cirurgia robótica é, de certa forma, recente…
Tem cerca de 25 anos. Mas tem uma aplicabilidade muito crescente sobretudo nos últimos dez anos. Nos primeiros 15 anos foi muito uma só especialidade que avançou muito na robótica: a urologia. E foi, na verdade, quem ajudou a desenvolver o sistema. Desde há dez anos, outras especialidades, nomeadamente a ginecologia e a cirurgia geral, são as que mais têm crescido.

Que grandes vantagens é que a cirurgia robótica traz – e também que problemas podem surgir?

As vantagens imediatas, que já traz neste momento, é que permitem fazer cirurgia vídeo-endoscópica e laparoscópica – minimamente invasiva, ou seja, sem abrir o doente – de uma forma mais fácil. Facilita o trabalho do cirurgião a fazer cirurgia minimamente invasiva. Em que é que isto se traduz? Um cirurgião consegue fazer a mesma cirurgia de forma mais segura, com menos complicações, e vai conseguir, por via minimamente invasiva, cirurgias que ele antes não era capaz de fazer. Há muitas operações em que os cirurgiões não são capazes de fazer porque são muito exigentes, tecnicamente são muito difíceis. Ora, muitas destas operações, havendo robótica, já são mais precisas e facilitam a vida do cirurgião. Há um conjunto de vantagens meramente técnicas e mecânicas que a robótica oferece. Por exemplo, na cirurgia minimamente invasiva os instrumentos são rígidos. [mostra uma pinça] Como vê este instrumento abre e fecha, roda, mas não faz mais nada. Este instrumento [o robot Da Vinci] movimenta-se e revoluciona completamente o que eu consigo fazer. Isto é possível ser assim porque eu trabalho diretamente no instrumento. Agora para transcrever esta entrevista tem um computar e um teclado e escreve, depois pode imprimir, se se enganar pode emendar. Antes, se escrevesse à máquina, se se enganasse, tinha de rasgar a folha e fazer outra vez. Agora não, o que está a fazer é virtual, não é no papel. Emenda, pode pôr uma tabela, pode imprimir. A máquina de escrever é esta pinça e o computador é este robot. Porquê? Porque há um software nesta consola que é o cérebro do sistema e que o cirurgião controla. O facto de haver um programa informático entre mim e as “mãos” do robot, permitem abrir um mundo ao cirurgião que nos últimos 150 anos não houve.

Aqui passamos do analógico ao digital…
Exatamente. A grande revolução disto, a que chamamos erradamente robótica, é na verdade a cirurgia digital. Provavelmente evoluiremos ao nível da cirurgia robótica, mas isso suporia algum grau de automatismo e de programação em que o robot faria sozinho. Isto é cirurgia digital, é o cirurgião que manda. Está aberto o caminho. No fundo, isto foi um iPhone que foi lançado sem aplicações, há o hardware e o sofware que permite fazer algumas coisas. Mas este princípio agora permite uma quantidade de coisas que ainda nem sabemos quais são. Agora vão aparecer centenas de aplicações que não sabemos quais serão.

Isto abre espaço também para revolucionar a forma como a medicina opera.
Sim e sobretudo a medicina cirúrgica. Seremos cada vez mais dependentes deste tipo de sistemas e cada vez com menos erros. Por exemplo, quando eu faço uma cirurgia tenho mais ou menos a ideia de que fiz alguns movimentos desnecessários, houve correções de movimentos. E eu tenho essa noção porque a cirurgia demorou um pouco mais do que era suposto, mas é uma visão muito subjetiva que acabo por ter. Aqui ele diz-me “você teve, nesta cirurgia, em relação à sua média, menos 20% de economia de movimento” ou “foi eficiente mais 10%”. Dá um relatório detalhado e feedback do que foi bem feito e mal feito. Eu sei exatamente o porquê. Cada vez mais vamos ter instrumentos que podem ter sensibilidades e os próprios instrumentos, pelos sensores que lá forem colocados, me vão dizer que, quando eu pego num tecido com uma pinça e me preparo para cortar porque penso que é só um bocado de gordura, passa ali um nervo que eu não estou a ver. Portanto, o caminho está aberto.

Noutro prisma, qual a importância da existência destes cursos de cirurgia robótica para os cirurgiões e os estudantes?

Antes havia muito o paradigma de que os cirurgiões ensinavam uns aos outros e todos aprendiam nos doentes. Hoje, cada vez mais a simulação e o treino em animal como intermédio antes de chegar ao paciente é uma exigência. É fundamental aprender isto e chegar ao doente já com uma série de aprendizagens e treinos feitos. O papel da Escola de Medicina e do ICVS é ótimo. Na minha ótica é talvez a melhor escola médica do país, é muito bem equipada do ponto de vista físico, ainda melhor equipada do ponto de vista humano. Professores ativos, jovens, competentes e que gostam de ensinar – e que têm o drive certo para um professor do século XXI.
João Dias (EM/ICVS)
João Dias (EM/ICVS)
João Dias (EM/ICVS)